TDAH em meninas: por que o diagnóstico pode chegar mais tarde?

Uma aluna tendo dificuldades na escola, representando tdah em meninas.

Compreender as nuances do TDAH em meninas pode auxiliar famílias e educadores a identificar padrões de comportamento e buscar informações com responsabilidade

O TDAH em meninas frequentemente apresenta um percurso distinto até o diagnóstico. Pesquisas apontam que comportamentos agitados ou impulsivos podem ser notados mais cedo, enquanto dificuldades sutis, como desatenção ou esforço para compensar a rotina, podem ser menos percebidas. É essencial compreender que, embora existam tendências de manifestação entre gêneros, a experiência individual é variada.

Compreender esse cenário não significa afirmar que toda menina distraída ou desorganizada tem TDAH. Rótulo não é diagnóstico. Significa reconhecer que existem fatores, clínicos e sociais, que influenciam quem é observado, encaminhado e avaliado.

Ponto-chave: a identificação do TDAH não deve ser pautada em rótulos, impressões isoladas ou comparações superficiais. Ela requer uma avaliação profissional aprofundada, considerando o contexto individual e o impacto dos sinais no dia a dia.

IMPORTANTE: este material é informativo e educativo. Ele não substitui consulta, avaliação, diagnóstico ou orientação de um profissional de saúde. Procure sempre um profissional qualificado para dúvidas ou preocupações relacionadas à saúde.

Por que o TDAH pode passar despercebido em meninas?

A diferença começa antes mesmo da avaliação clínica: ela está em quem é notado como alguém que “precisa de ajuda”.

Diretrizes clínicas reconhecem que o TDAH é subidentificado em meninas e mulheres. Elas têm menor probabilidade de ser encaminhadas para avaliação, maior chance de permanecer sem diagnóstico e maior risco de receber um diagnóstico equivocado de outra condição de saúde mental¹.

Parte dessa lacuna também aparece nos números. Meninas preenchem os critérios diagnósticos de TDAH em uma proporção bem menor que meninos na infância, uma diferença que diminui consideravelmente na vida adulta².

Estudos com educadores reforçam esse ponto. Em pesquisas nas quais o mesmo comportamento foi descrito para professores, mudando apenas o nome e o gênero da criança, meninos foram mais frequentemente indicados para encaminhamento e considerados mais adequados para intervenção³.

Assim, uma observação atenta das meninas visa a identificar dificuldades persistentes, evitando que sejam erroneamente atribuídas a traços de personalidade, falta de esforço ou timidez. 

TDAH não significa apenas hiperatividade

Um dos motivos que dificultam o reconhecimento do TDAH em meninas é a associação do transtorno, quase automática, à hiperatividade.

A literatura científica aponta que meninas com TDAH podem apresentar, com maior frequência, um perfil caracterizado por desatenção e dificuldades internalizantes, como ansiedade e baixa autoestima. Já sintomas de hiperatividade e impulsividade podem ser percebidos mais rapidamente quando aparecem de forma externalizante. 

Essas diferenças, porém, devem ser entendidas como tendências observadas em estudos, e não como regras individuais.²

Relatórios escolares tendem a comentar mais sobre problemas de atenção, como devanear, distrair-se, desorganização e falta de motivação, quando o assunto são meninas¹.

Em meninas, dificuldades relacionadas à atenção e à organização podem ser percebidas de forma menos evidente, especialmente quando não há comportamentos que chamem atenção no ambiente escolar. Quando esses padrões persistem ao longo do tempo e trazem prejuízo à rotina, à aprendizagem, às relações ou ao bem-estar, é importante buscar avaliação profissional. Nenhuma manifestação isolada permite concluir TDAH.

Para entender melhor como esses sinais podem aparecer em diferentes fases da vida, vale ler também o conteúdo sobre sinais do TDAH.

Como os rótulos podem esconder dificuldades reais

“Distraída”, “no mundo da lua”, “desorganizada”, “sonhadora”. Esses rótulos surgem no dia a dia com boa intenção, muitas vezes como forma carinhosa de descrever um jeito de ser. O problema é quando eles se tornam a única explicação para dificuldades que persistem e afetam diferentes áreas da vida da menina, como escola, amizades e rotina em casa.

Algumas meninas desenvolvem estratégias de compensação para lidar com essas dificuldades sem chamar atenção, o que pode mascarar a real dimensão do que estão enfrentando³.

Isso não quer dizer que apresentar esses comportamentos seja sinônimo de TDAH. Significa que, quando um rótulo se repete com frequência e vem acompanhado de sofrimento ou prejuízo, ele pode estar escondendo algo que merece ser observado com mais cuidado, por um profissional de saúde.

Em resumo: rótulos podem simplificar demais situações complexas. Quando há sofrimento, prejuízo escolar, dificuldade nas relações ou impacto na rotina, o mais seguro é buscar orientação profissional.

O papel da família e da escola na observação

Pais, responsáveis e educadores costumam ser os primeiros a perceber padrões de comportamento que se repetem ao longo do tempo, o que os coloca em posição privilegiada de observação.

Relatos da família e da escola são especialmente importantes na avaliação de meninas, já que informações colaterais ajudam a compor um quadro mais completo do que apenas o comportamento observado em consultório³.

Momentos de transição, como a mudança para o Ensino Fundamental II ou para o Ensino Médio, costumam expor dificuldades que antes eram compensadas por rotinas mais estruturadas e maior suporte³.

Observar, nesse contexto, significa registrar frequência, duração e impacto das dificuldades, sem chegar a conclusões antecipadas. A avaliação profissional considera critérios que vão muito além de um comportamento isolado, incluindo se as manifestações estão presentes em mais de um ambiente da vida da criança ou adolescente¹.

Família e escola não fecham diagnóstico, mas podem reunir informações importantes para a avaliação. Anotar exemplos concretos, mudanças de comportamento e impactos na rotina ajuda o profissional a entender melhor o contexto.

Também pode ser útil conhecer a importância da rede de apoio para pessoas com TDAH, especialmente quando família, escola e profissionais precisam atuar de forma integrada.

Quando procurar avaliação profissional?

Não existe um comportamento único que indique TDAH, e nenhuma lista de sinais substitui uma avaliação feita por quem tem formação para isso.

Diretrizes clínicas indicam que, para chegar a um diagnóstico, os sintomas de desatenção e hiperatividade ou impulsividade precisam ser persistentes, causar prejuízo pelo menos moderado e estar presentes em dois ou mais contextos importantes da vida da pessoa, como escola, casa e convívio social¹.

O processo de avaliação também não se resume a questionários. Ele envolve entrevista clínica, escalas de avaliação e, sempre que possível, relatos de familiares e da escola³.

Se dificuldades relacionadas à atenção, organização ou comportamento persistem, afetam diferentes áreas da vida e geram sofrimento para a menina ou para a família, conversar com um profissional de saúde é o caminho mais seguro para entender o que está acontecendo.

O diagnóstico deve considerar a história da menina, o contexto em que os sinais aparecem, a presença de prejuízos na rotina e a possibilidade de outras condições explicarem parte das dificuldades.

Para entender melhor o que acontece nesse processo, veja também o conteúdo sobre como funciona uma avaliação de TDAH. (vai ser linkado com o texto de blog)

Observar é diferente de diagnosticar. Rótulo não é diagnóstico.

Informação é um primeiro passo para compreender melhor o TDAH e saber quando buscar avaliação profissional.

A campanha TDAH Sem Rótulos, da Cellera Farma, reforça uma mensagem educativa: antes de reduzir uma menina a um comportamento, é preciso considerar sua história, seu contexto e suas necessidades. Esta menção tem caráter institucional e informativo, sem finalidade de diagnóstico, tratamento ou promoção de produto.

Aviso legal: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Ele não tem finalidade diagnóstica e não substitui avaliação, diagnóstico, tratamento ou orientação de um profissional de saúde. Em caso de suspeita de TDAH ou prejuízo persistente na rotina, procure um profissional qualificado.

Referências:

  1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NICE Guideline No. 87. London: NICE; 2019 Sep.
  2. Hinshaw SP, Nguyen PT, O’Grady SM, Rosenthal EA. Annual Research Review: Attention-deficit/hyperactivity disorder in girls and women: underrepresentation, longitudinal processes, and key directions. J Child Psychol Psychiatry. 2022;63(4):484-96.
  3. Young S, Adamo N, Ásgeirsdóttir BB, Branney P, Beckett M, Colley W, et al. Females with ADHD: An expert consensus statement taking a lifespan approach providing guidance for the identification and treatment of attention-deficit/hyperactivity disorder in girls and women. BMC Psychiatry. 2020;20:404.

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