TDAH e escola: o que observar e para quem encaminhar?

Menino com dificuldades na escola, representando os desafios do tdah e escola.

A escola pode perceber dificuldades que se repetem, mas seu papel é observar e acolher. Entenda como transformar a preocupação em um encaminhamento responsável

Pais e professores muitas vezes se perguntam como agir quando uma criança tem dificuldade constante para manter a atenção ou concluir tarefas. A relação entre TDAH e escola desperta dúvidas justamente porque é na sala de aula que muitas dessas situações ficam mais visíveis.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade persistentes, e estima-se que afete cerca de 5% das crianças.¹

Ainda assim, palavras como “distraído” e “agitado” são rótulos, não diagnósticos. A seguir, veja o que a escola pode observar e para onde levar essa preocupação.

Ponto-chave: a escola não diagnostica TDAH. Seu papel é observar padrões, acolher a criança, registrar situações concretas e orientar a família a buscar avaliação profissional quando houver prejuízo persistente na rotina escolar, social ou familiar.

Quadro rápido: o que a escola pode e não pode fazer

A escola pode:

  • observar padrões que se repetem;
  • registrar situações concretas;
  • acolher a criança e a família;
  • compartilhar informações de forma cuidadosa;
  • encaminhar o estudante para avaliação diagnóstica quando houver suspeita consistente e impacto na rotina escolar, conforme previsto na Lei nº 14.254/2021;⁵
  • articular informações com a família e com profissionais habilitados, sem antecipar diagnóstico.⁵

A escola não deve:

  • fechar diagnóstico;
  • usar rótulos para definir a criança;
  • indicar tratamento;
  • atribuir toda dificuldade escolar ao TDAH;
  • substituir a avaliação de profissionais de saúde.

Qual é o papel da escola diante de uma suspeita de TDAH?

Professores acompanham a criança por muitas horas e em situações variadas, o que permite notar padrões que nem sempre aparecem em casa. Cabe à escola observar, acolher, registrar o que percebe e compartilhar essas informações com a família. 

A escola também pode encaminhar o estudante para avaliação diagnóstica quando houver suspeita de TDAH ou outro transtorno de aprendizagem com impacto na rotina escolar, conforme previsto na Lei nº 14.254/2021. O diagnóstico, porém, não é feito pela escola e pertence a profissionais habilitados.⁵

Estar atento faz diferença. Um estudo com mais de 657 mil estudantes suecos associou o transtorno a um desempenho escolar substancialmente menor, independentemente de fatores socioeconômicos.²

Pesquisas também mostram que o conhecimento dos professores sobre o tema varia bastante e que docentes mais bem informados tendem a ter atitudes mais positivas com esses alunos.¹

Isso não significa que a escola deva procurar um diagnóstico em toda dificuldade de aprendizagem ou comportamento. Significa que, quando um padrão se repete e interfere na rotina, a observação cuidadosa pode ajudar a escola, a família e os profissionais de saúde a entenderem melhor o contexto e, quando necessário, organizar o encaminhamento para avaliação diagnóstica.⁵

Para aprofundar esse tema, vale ler também sobre TDAH em crianças na escola. Neste conteúdo, o leitor encontra mais informações sobre como o tema pode aparecer no ambiente escolar e por que a observação deve ser conduzida com responsabilidade. 

O que a escola pode observar e registrar?

Mais do que um episódio isolado, o que merece atenção é a persistência.

Em um estudo com crianças do ensino fundamental e seus professores, os docentes relataram dificuldades ligadas à atenção e à concentração, inclusive para permanecer sentado e focado em uma única atividade por longos períodos. Também citaram reações impulsivas em situações sociais e dificuldade para lidar com as emoções.¹

Essas manifestações podem ocorrer em diferentes contextos e por diferentes motivos. Vale acompanhar se a dificuldade se repete em várias disciplinas, se também aparece em casa, há quanto tempo acontece e quanto interfere na aprendizagem e nas relações. Quando as situações são persistentes e têm impacto significativo, podem justificar uma conversa com um profissional de saúde.

Observar também significa enxergar o que vai bem. No mesmo estudo, professores destacaram a imaginação, a criatividade e o bom desempenho em artes e educação física como pontos fortes das crianças.¹

Na prática, a escola pode observar e registrar:

  • em quais atividades a dificuldade aparece com mais frequência;
  • se o comportamento se repete em diferentes disciplinas ou momentos do dia;
  • há quanto tempo a situação acontece;
  • se há impacto na aprendizagem, nas relações ou na participação em sala;
  • quais estratégias já foram tentadas;
  • quais pontos fortes a criança demonstra;
  • como ela responde a orientações, pausas, recursos visuais ou atividades em etapas.

Esse registro deve ser descritivo e cuidadoso, sem transformar observações em diagnóstico.

Uma dificuldade escolar significa TDAH?

Não. Dificuldades escolares podem ter muitas origens.

Em um estudo com professores, uma docente contou não saber se a lentidão de um aluno para escrever se devia à atenção ou a uma dificuldade real com a tarefa. O mesmo trabalho lembra que outras condições costumam ocorrer junto ao TDAH, como dificuldades de coordenação motora e o transtorno do espectro autista, e podem explicar parte do que se observa.¹

O ambiente escolar também pesa. Uma pesquisa com mais de 23 mil estudantes noruegueses mostrou que o efeito dos sintomas de TDAH sobre o desempenho variou de uma escola para outra, sendo bem mais fraco em algumas delas.³

Só uma avaliação profissional, que considera histórico, duração, impacto funcional e outras hipóteses, pode esclarecer o que está acontecendo.

Em resumo: dificuldade para prestar atenção, concluir tarefas ou permanecer sentado pode ter relação com TDAH, mas também pode envolver sono, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, questões emocionais, ambiente escolar, rotina familiar ou outras condições de saúde.

Como conversar com a família sem criar rótulos?

Rótulos têm peso. Em uma pesquisa, crianças de 11 e 12 anos que leram descrições de comportamentos associados ao TDAH escolheram adjetivos como “descuidado”, “solitário” e “burro” para descrever o colega. Percepções negativas desse tipo podem afetar o bem-estar e levar à autoestigmatização.¹

Na conversa, ajuda descrever situações concretas em vez de usar adjetivos: o que aconteceu, em quais atividades e com que frequência. Também é importante ouvir como a criança se comporta em casa, apresentar seus pontos fortes e evitar qualquer conclusão sobre TDAH.

O objetivo é compartilhar observações e sugerir orientação de saúde, não entregar uma hipótese pronta.

Uma abordagem mais cuidadosa pode seguir três passos:

  • descrever fatos observáveis, sem rótulos ou julgamentos;
  • escutar a família sobre o que acontece fora da escola;
  • sugerir avaliação profissional quando houver persistência, prejuízo e sofrimento.

Em vez de dizer “ele tem TDAH”, a escola pode dizer: “temos observado dificuldade frequente para concluir atividades, manter a atenção e acompanhar algumas propostas. Achamos importante conversar com um profissional de saúde para entender melhor o que pode estar acontecendo”.

Também pode ser útil conhecer o papel de educadores e pais na identificação e no cuidado do TDAH. Esse conteúdo aprofunda como família e escola podem contribuir sem substituir a avaliação profissional.

Para quem encaminhar quando existe preocupação?

Quando existe preocupação persistente, a escola pode encaminhar o estudante para avaliação diagnóstica, conforme previsto na Lei nº 14.254/2021. Esse encaminhamento não significa fechar diagnóstico dentro da escola, mas formalizar a necessidade de avaliação por profissionais habilitados.⁵

Também não cabe à escola definir previamente qual é a condição ou escolher um diagnóstico possível. Seu papel é compartilhar observações concretas, registrar o impacto na rotina escolar e orientar a família sobre a importância da avaliação, dentro de um cuidado articulado entre educação, saúde e, quando necessário, outras políticas públicas.⁵

O ponto de partida pode ser o pediatra ou o médico que já acompanha a criança, que poderá orientar os próximos passos e, quando necessário, indicar avaliação com outros profissionais habilitados, como neuropediatra, psiquiatra da infância e adolescência, psicólogo ou neuropsicólogo.

A Lei nº 14.254/2021 também prevê que o acompanhamento integral envolve identificação precoce, encaminhamento para diagnóstico, apoio educacional na rede de ensino e apoio terapêutico especializado na rede de saúde. Por isso, o encaminhamento deve ser entendido como parte de uma rede de cuidado, e não como conclusão diagnóstica da escola.⁵

Um relatório da escola com exemplos de situações observadas pode contribuir com a avaliação, como mais uma fonte de informação.

Esse relatório pode incluir, por exemplo:

  • situações em que a dificuldade aparece;
  • frequência e duração dos comportamentos observados;
  • impacto na aprendizagem e nas relações;
  • estratégias pedagógicas já utilizadas;
  • respostas positivas da criança a determinados recursos;
  • pontos fortes e interesses que ajudam no engajamento.

Quanto mais objetivo for o registro, maior a chance de ele contribuir para uma avaliação responsável, sem antecipar conclusões.

Como escola, família e profissionais de saúde podem trabalhar juntos?

A colaboração não precisa esperar um laudo. Serviços de psicologia escolar podem elaborar planos pedagógicos individuais com base nos sintomas e no funcionamento da criança, e não no diagnóstico. Ainda assim, pesquisadores apontam que muitas escolas deixam de oferecer apoio precoce e fazem a criança aguardar o diagnóstico.³

Na sala de aula, professores relatam usar recursos visuais, instruções mais curtas e divididas em etapas, ajustes no lugar onde a criança se senta e atividades em pequenos grupos. O que funciona, porém, varia de uma criança para outra e pode mudar com o tempo, por isso conhecer bem o aluno e manter a comunicação entre todos é decisivo.¹

Algumas estratégias escolares podem apoiar a rotina enquanto a família busca orientação, como:

  • dividir instruções em etapas menores;
  • usar recursos visuais para organizar a atividade;
  • confirmar se a criança entendeu a proposta;
  • combinar pausas curtas quando necessário;
  • organizar a criança em um local com menos distrações;
  • valorizar pontos fortes e avanços concretos;
  • manter comunicação clara com a família.

Essas estratégias não substituem avaliação profissional, mas podem ajudar a tornar o ambiente escolar mais acolhedor e organizado.

Quando o cuidado envolve diferentes profissionais, vale entender melhor o papel de uma equipe multidisciplinar no TDAH. Esse tema ajuda a explicar por que diferentes profissionais podem participar do cuidado, cada um dentro de sua área de atuação. 

Observar é diferente de diagnosticar

A escola tem um papel importante na observação, no acolhimento e no compartilhamento de informações. A avaliação e o diagnóstico, no entanto, pertencem aos profissionais de saúde habilitados, que consideram o contexto completo.

Rótulo não é diagnóstico.

Informação é um primeiro passo para compreender melhor o TDAH e saber quando buscar avaliação profissional.

A campanha TDAH Sem Rótulos, da Cellera Farma, reforça essa mensagem: antes de reduzir uma criança a um comportamento, é preciso observar com responsabilidade, acolher com cuidado e encaminhar sem conclusões precipitadas.

Aviso legal: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Ele não tem finalidade diagnóstica e não substitui avaliação, diagnóstico, tratamento ou orientação de um profissional de saúde. Em caso de suspeita de TDAH, prejuízo persistente na rotina escolar ou dúvidas sobre encaminhamento, procure um profissional qualificado.

Referências:

  1. McDougal E, Tai C, Stewart TM, Booth JN, Rhodes SM. Understanding and supporting attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in the primary school classroom: perspectives of children with ADHD and their teachers. J Autism Dev Disord. 2023;53(9):3406-21. doi:10.1007/s10803-022-05639-3.
  2. Jangmo A, Stålhandske A, Chang Z, Chen Q, Almqvist C, Feldman I, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder, school performance, and effect of medication. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2019;58(4):423-32. doi:10.1016/j.jaac.2018.11.014.
  3. Cheesman R, Eilertsen EM, Ayorech Z, Borgen NT, Andreassen OA, Larsson H, et al. How interactions between ADHD and schools affect educational achievement: a family-based genetically sensitive study. J Child Psychol Psychiatry. 2022;63(10):1174-85. doi:10.1111/jcpp.13656.
  4. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em:https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/t/transtorno-do-deficit-de-atencao-com-hiperatividade-tdah/view  
  5. Brasil. Lei nº 14.254, de 30 de novembro de 2021. Dispõe sobre o acompanhamento integral para educandos com dislexia, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, TDAH, ou outro transtorno de aprendizagem.

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